13 de dezembro de 2010

executivas



 
O jornal Valor Econômico publicou hoje um caderno especial chamado Executivas: as melhores gestoras de empresas no Brasil, com a apresentação de 14 executivas de destaque e mais algumas reportagens sobre o assunto. De forma geral, acho que o caderno retratou a loucura que é ser uma executiva: para quem vê, glamour e poder; para quem vive, renúncias e trabalho duro. A vida como ela é.

Não acho natural que uma mulher se torne presidente ou diretora de primeira linha de uma empresa: ainda não somos educadas para chegar ao topo, as empresas não estão adaptadas para que uma mulher/ mãe chegue nesses níveis e há sim, ainda, discriminação. Os números concordam comigo: atualmente, no Brasil, apenas 5% das presidentes de empresas são mulheres, 19% diretoras e 25% gerentes. Então, cara amiga, temos que tirar o chapéu para quem conseguiu chegar lá.

Como disse antes, as histórias retratam muito sacrifício. Maria Silvia Bastos Marques, atual presidente da Icatu Seguros, por exemplo, contou que voltou a trabalhar um mês depois do nascimento dos filhos gêmeos, quando era presidente da Companhia Siderúrgica Nacional: "Se eu ficasse quatro, cinco meses fora, não precisariam mais de mim. Em algumas funções não é possível estar tanto tempo fora". Antes de atirarmos pedras e dizer que ela é uma péssima mãe, vamos lembrar que cada um faz a sua escolha e que, convenhamos, deve ser bem difícil deixar a presidência da CSN.

A publicação faz um esforço para mostrar como as mulheres podem alcançar cargos de liderança e como o Brasil pode repetir dados de países nórdicos, onde é lei que 40% do conselho de uma empresa deve ser composto por mulheres, por exemplo. Mas como já dizia o meu chefe, 'o mundo não é uma grande Noruega', volta e meia a publicação adota um caráter machista e nos retrata como idiotas. Por exemplo, em um texto que fala sobre networking feminino, está escrito que nos encontros "não têm muito tempo para falar dos filhos ou do rumo da novela das oito", como se esses fossem os assuntos preferidos das mulheres quando se reúnem.

Mas o pior de tudo vem agora. Depois do esforço de apresentar 14 mulheres que deram duro e criaram estratégias diferenciadas para poder administrar casa, família e trabalho, o caderno é fechado com uma matéria sobre sapatos. Até aí tudo bem, quem não ama sapatos? A questão é que o sapato, especialmente o de salto, é apresentado como o objeto que personifica o poder feminino ou, vamos lá amigas psicanalistas, como o falo da executiva! Exemplo:

"Nada deixa a imagem feminina tão poderosa (...) É impossível que uma mulher se acovarde quando está de saltos altos (...) Mesmo com todo o desconforto que os saltos causam, depois de dez horas de trabalho, boa parte delas prefere equilibrar-se sobre bases incertas desse tipo de calçado a perder a aparência de sucesso usando modelos rasteiros".

Não interessa se a mulher estudou, ralou e trabalha 14 horas por dia, só terá sucesso com o sapato certo, alto e desconfortável. Pode haver algum discurso mais machista? Definitivamente, estamos longe, muito longe, da igualdade entre os sexos, o que só aumenta o mérito de quem conseguiu. Independente do tamanho do salto.

17 comentários:

Roberta Souza disse...

Verdade, Carol. Chegar lá deve ser muuito difícil sim. E quem chegou, com toda a certeza fez escolhas muito difíceis.

beijosss

Mariana - viciados em colo disse...

É com muita tristeza que constato que tudo o que você diz é a mais pura realidade. Recentemente uma amiga fez uma palestra sobre mulher e espaços de poder num caso específico e os números foram muito ruins. Até pioraram em quatro anos...

O salto alto é o falo da mulher! Adorei e acho que não é a toa que de uns anos para cá adotei o salto 3 e as sapatilhas no trabalho. Saltos só para o marido!

Beijoca

Celia na Italia disse...

Carol
Não sei se o texto da revista é crise de consciencia ou medo da concorrência. É mais ou menos assim, se falarmos delas elas ficarão felizes e além de fazer jornadas longas no trabalho, cuidar das crianças, fazer super, ir a farmácia, manter os gastos sob controle ... ainda terão tempo e disponibilidade para um jantarzinho ou talvez até sexo.
Mas te digo uma coisa, estes dias nos Emirados estão me fazendo pensar muito na questão da mulher no mundo. A gente não tem idéia do que seja submissão até chegar a um lugar como este. Não dá para acreditar no que se vê.
Um abraço

Carol Garcia disse...

é mesmo carola,
dificil chegar e se manter então, com respeito, deve ser uma luta daquelas.
ainda mais sobre o salto...
afff...a gente tem que escutar cada uma, não?
bjo bjo

RECOMADRES disse...

Oi Carol,
Parabéns à todas as moçoilas que fazem suas escolhas e chegam lá ou não...todos os lados dessa questão têm seus méritos e todos sofrem com os olhares machistas, iclusive das próprias mulheres...conheço mulheres mais machistas que alguns homens.
Beijos,
Cris João.

Mirys disse...

Realmente, Carol, é o "ó"!!!!

Mas, passei por aqui para te aplaudir pelo alerta ao pessoal da "mulher e mãe", no pontapé do protesto pelas mães blogueiras.

Também sou mãe de dois pequenos (sozinha, pois meu marido faleceu no início do ano... longa história...) e comecei a fazer o tal blog para as crianças se lembrarem do pai, da infância e um pouquinho de mim, também (vai que...né? Ninguém é eterno...).

Parabéns pra você, viu?

Bjos e bençãos

Mirys - www.diariodos3mosqueteiros.blogspot.com

Camila disse...

Ai, meu Deus, quanta bobagem e estereotipização... Por essas e por outras que me acho o máximo como Diretora do RH do alto das minhas belíssimas Havaianas...
Bjos,
Camila
http://mamaetaocupada.blogspot.com/

Fernanda disse...

Adorei Carol, gosto muito destes seus posts de assuntos variados não só de filhos. Deixa eu contar uma coisa, aqui em Portugal a licença Maternidade pode ser compartilhada com o marido. Ele vai ficar 2 meses com o bebê e eu volto a trabalhar. Apesar de ser lei nosso chefe achou absurdo, ficou escandalizado. Vai entender!!

C disse...

Ó Jesus... estava pensando nessas coisas hoje de manhã, antes de ler teu post. Que a geração das nossas mães adentrou o mercado de trabalho. Que a nossa geração limpou o terreno, a base de muito esforço. E que se soubermos educar bem nossos filhos e filhas ambos dividirão o mercado de trabalho, e ambos ganharão.
O problema é que vejo as mães criarem filhas princesas e filhos guerreiros. Isso me preocupa ( e em alguns momentos me desespera), pois fico com dúvidas se as mulheres estarão melhor preparadas daqui a 20 anos para assumir seus lugares, ou se estarão esperando o princepe encantado e preocupadas com seus sapatos.
Somos inteligentes, capazes, estudadas. Mas, ainda sim, nas reuniões de cupula somos 1 ou 2 mulheres num mundaréo de homens. E não trabalhamos em equipe. E nos invejamos demais. E sofremos mais que o necessário pela maternidade. E nos cobramos demais.
E assim gastamos tempo e energia em sofrer por coisas que não precisam ser sofridas, que podem ser administradas.
A culpa nos persegue.
Depende só de nós mudar isso, educando bem nossos filhotes, sejam eles de sexo for.

bjs

Naiara Krauspenhar disse...

Realmente não deve ser fácil chegar lá.
Primeiro pelas renúncias.
Segundo pelo trabalho duro. Que inclui o próprio trabalho, filhos, casa, supermercado...
E terceiro, pior, por ter que encarar uma sociedade com essa mentalidade.
Bjos

Ilana disse...

Carol, não consegui ler a matéria, que só está disponível para assinantes, mas tudo isso que você disse me fez mesmo parar pra pensar. Independente das escolhas que fiz quando me tornei mãe, realmente acho muito dífícil conciliar tudo isso, na sociedade em que vivemos.
Justamente porque se pensa que "o salto alto é falo da mulher", quando na verdade só coloca o salto no lugar de falo aquela (e aqueles, principalmente) que ainda não se deu conta de que o falo não está em lugar nenhum, de que cada um faz o quê e como pode, buscando o que é melhor para si.
Só mas mulheres mesmo pra poderem virar um pouco esse pensamento machista...
Beijos

Pâmella disse...

Amiga, depois volto com calma para ler o post todo, passeio agora só pra avisar que tem selinho pra ti...

Beijos

Ana disse...

Mexe comigo para ver se não vou para cima de rasteirinha?
Vc veio passar calor em Vitória?
Beijos!

Ana disse...

Vixi! De botina de segurança mulher?
Tá enfiada no meio do minério nesse calor?
Agora sim fiquei com muita pena de você! Kkkkk
Beijos!

Pati disse...

Muito bom seu texto Carol.
A questão do salto/falo...nunca tinha me atentado, mas faz todo o sentido do mundo.
Concordo que o mercado ainda é muito machista e deve ter sido muito dificil para todas estas mulheres chegarem aonde chegaram. Mas a verdade tb é que não sei quantas mulheres ainda continuam com o objetivo de chegar no topo após maternidade, ou para qualquer mulher que encontra felicidade e realização nas coisas simples da vida!

Kah disse...

Eu tenho uma opinião tão diferente sobre isso que tenha até uma certa vergonha de expor aqui. hauahuah

Mas assim, acho que o caminho não é procurar igualdade, sabe? Porque igualdade é declarar que todos são iguais, homens e mulheres são diferentes, tem necessidades diferentes. Acho que o caminho para a mulher ser reconhecida é outro... É mostrar que mesmo dentro das diferenças, que são muitas, e dentro das limitações, que como mãe nós sabemos que existem, as mulheres podem sim ocupar qualquer cargo.
Enfim...
Mas o mérito, independente do salto e da marca do vestido e da bolsa, não pode nunca ser tirado dessas mulheres.
Beijão!

Quase uma alema disse...

Sinto muito por isso, pois admiro a chanceler alemã Angela Merkel e todo o time feminino dela. Nenhuma, eu escrevi NENHUMA delas usa o famoso salto alto e sim, sapatilhas baixas e confortáveis e nenhuma delas é questionada sobre o poder que tem e conquistaram.....No Brasil é mais importante a imagem que se tem, do que exatamente o que se conquistou.

Abs,

http://quaseumaalema.blogspot.com/