Palestina
PS: quem estiver em São Paulo entre os dias 04 e 30 de março pode conhecer um pouquinho mais do Médicos sem Fronteiras através da exposição "Experiências de vida – Olhares sobre a atuação de Médicos Sem Fronteiras", no Shopping West Plaza, na praça de eventos, térreo, bloco B. A exposição trará fotos, depoimentos, vídeos e mapas interativos mostram como vivem e trabalham os brasileiros de Médicos Sem Fronteiras (MSF), e no dia 18 de março às 19 horas, haverá um bate-papo com a psicóloga paulista Elaine Teixeira, que teve experiências em Moçambique e Suazilândia.
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Por Fernanda Menna Barreto Krum
Primeiro de tudo: Obrigada Carol pela oportunidade! Uma das primeiras coisas que fiz quando comecei o meu trabalho fora do Brasil foi montar um Blog. Adivinhem? A ONG vetou e disse que qualquer publicação deveria passar primeiro pelo crivo deles. Imagina, escrever em inglês e depois em português e depois ainda organizar o que dá e o que não dá pra publicar. Desisti!!!!
Mas não desisti de seguir registrando e compartilhando tudo durante esses quase quatro anos de testemunho, aprendizado e vivência. Tentei manter uma lista de emails nos quais dividi um pouco algumas experiências. Tenho publicado alguns recursos no facebook (documentários e notícias - ainda bem que a gente encontra serventia pra isso) e fotos no meu álbum pessoal para que, além de palavras, as pessoas tenham uma visão física de onde os dramas teatrais acontecessem. Por fim, para que nada se perca, tenho mantido um diário pessoal que, se o Universo entender ser o melhor caminho, se tornará um livro no futuro.
Hoje, mais um capitulo será escrito, graças a essa grande amiga Carol e sua ativa atividade de ativista blogiana, mãe, psicóloga, cidadã. Admiro tua forma de viver, pois como disse uma vez a uma amiga que referiu admirar minhas escolhas “desapegadas” de vida e trabalho: EU que te admiro, porque não sei como consegues gerenciar dois filhos pequenos, casa, estudos, trabalho e marido ao mesmo tempo sempre com um sorriso nos lábios e um coração em paz; eu, neste momento, não conseguiria!
Desapego na verdade pra mim é poder estar em paz com as escolhas que fazes e não sempre querendo algo diferente ou sentindo que algo falta. Estar plena e certa de que este é o caminho, até que ele se mostre diferente e rume em outra direção, que será somente a continuação do caminho anterior.
Acho que já filosofei demais, o que não era o principal objetivo dessa participação especial. Vamos ao que interessa então. Ou não! :)
Trabalhar e estar presente de corpo e alma em regiões onde conflitos armados entre seres humanos são o prato principal todos os dias realmente não é algo fácil. Não é pra qualquer um, mas isso não nos torna mais ou menos. Somente mostra que existem pessoas que se adaptam mais e amam mais algumas coisas do que outras coisas, mesmo que para alguns esse amor seja “um pouco estranho” (pra não dizer muito). E está tudo bem.
Este é um outro elemento muito importante quando se necessita estar frente a frente com membros do exército ou grupos armados ou radicais que já mataram ou feriram muita gente: o não-julgamento. Aprendi que não é só na sessão de psicoterapia que devo me colocar neutra (mesmo que a pessoa seja um ex-combatente que já matou mais de 50). Já estive em reuniões e em escritórios lidando com gente muito má, rude e dissimulada, tentando negociar, mediar ou solicitar um serviço (vistos, normalmente). Minha posição e reação deve ser sempre não-partidária, sem reações extremas ou opiniões definidas sobre certo ou errado. Não é todo mundo que consegue, já vi colegas perderem o prumo com funcionários do governo pedindo propina para autorizar que o nosso trabalho continuasse em operação. Sei que essa cena parece comum aos olhos de nós brasileiros, mas o grande problema neste caso é que um pequeno gesto de nossa parte faz com que uma ONG inteira seja simplesmente mandada embora do país enquanto milhares de pessoas ficam no inferno sem água para beber.
O que estou tentando dizer é que muitas vezes você se pega jogando o jogo deles, por mais sujo que seja, para que possa fazer melhor e tentar reparar um pouco do dano que causam. O sistema é terrível, a pressão que eles exercem é justamente para que reajamos de forma “desapropriada”, fornecendo a perfeita justificativa para que nos mantenham longe.
Duas semanas atrás fui ao ministério em Israel pedir meu visto de trabalho e foi exatamente isso que vivenciei. Uma mulher mais do que estúpida, tentando me tirar do sério para que então meu visto fosse negado. Ao pedir que eu escrevesse uma declaração que trabalho em Jerusalém e não nos Territórios Ocupados da Palestina (mentira, claro) foi capaz de dizer: “Tu precisas perguntar a alguém como faz, ou tu sabes mesmo escrever? Escreve logo que eu estou aqui esperando”. Meu coração bateu forte mas mantive meu rosto neutro e fiz o que foi solicitado. Menti para que pudesse manter meu trabalho como psicóloga do trauma na Palestina, óbvio! Sai de lá triste e com um desgosto dentro de mim, de testemunhar a que nível chegam as relações humanas como forma de manipulação e poder.
Discutindo o caso com meu companheiro, percebo que não deixei ela me atingir no sentido de me desestabilizar, mas sim, sou grata de ainda me surpreender e me entristecer com práticas como essa. Acho que essa é a pedra filosofal do Ativismo. Deixar-se tocar pelo injusto, mas não se deixando matar por ele. Sendo inteligente o suficiente para se manter vivo para, então, transformar a injustiça em arma de paz e de cura.
Afinal de contas, é isso que importa no final, manter-se ativo, ativado, ativista, da forma que puder pra que algo melhor floresça!