A convidada de hoje é a Mari, do
Viciados em Colo. Mãe engajada da Alice e do Arthur, faz campanha pela amamentação, usa sling, trabalha e faz mestrado. E ainda, humildemente, diz que seu único super poder é produzir leite...
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Por Mariana Sá
Quando Carol me convidou para escrever aqui me senti honrada e desafiada. Sou apaixonada por este blog e tenho especial apreço pela Carol. Queria fazer bonito, mas não achava o assunto, pensei em falar de culpa, livre demanda, etc. Mas sábado Alice me deu de presente o assunto, me irritou com um monte. Imediatamente lembrei da falta de paciência que qualquer uma de nós com seus filhinhos e me coloquei a pensar em tudo que eu já tinha feito para conseguir ter mais paciência com uma fase chatérrima: a dos porquês!
É uma fase chata porque dura muito tempo – começa lá para os três anos de forma bem interessante (por que a folha cai? por que o céu é azul?), se intensifica com quatro ou cinco de forma irritante (por que eu tenho que fazer isso? por que agora? ou simplesmente por quê?), piora na adolescência de forma aterrorizante (todos vão, por que eu não posso ir? por que tenho que estudar química? por que você não empresta o carro? por que você é tão chata? por que você me educou desta forma? por que você não morre? por que eu nasci?). Aí, lá para uns 25 anos se você tiver sorte, passa! Afinal isto também passa. Demora, mas passa!
Conto umas estratégias sobre como eu lido com a segunda etapa para vocês:
Quando Arthur tinha seis meses resolvi ir a uma sessão de cinematerna com ele e Alice, seria numa terça-feira e chamei uma amiga para ir comigo. Eu nunca tinha saído só com os dois para um lugar tão movimentado. A minha amiga furou e me vi sozinha, em cima da hora da sessão com um bebê, uma menina e uma sacola. Disse a Alice: “estamos sozinhas, você tem que me obedecer e não quero ouvir nenhum por quê, só aceito ‘tá bom, mamãe’, certo?” ela concordou e fomos ao cinema.
Pois bem, com o combinado feito, tivemos uma tarde ‘harmoniosa’: ela obedeceu a TODOS os comandos sem questionar e resolvi que enquanto ela fazia o que eu tinha ordenado, eu explicaria o por quê... Tipo: “Alice, me dê a mão.” “Tá bom, mamãe!” obedecia e eu dizia: “este corredor está muito cheio, tenho medo de te perder.” Alice, pegue a meia do seu irmão que caiu.” “Tá bom, mamãe!” eu dizia: “é que não consigo me alcançar com Arthur no sling”.
Só quem é mãe sabe o valor de ter uma ordem obedecida sem questionamentos!
Há um tempo, percebi que a quantidade de porquês antes curiosos e genuínos, agora não passava de enrolação, uma forma de ganhar tempo, de procrastinar. Aí inventei o “porque o quê?”. Tipo: “Alice, vá tomar banho!” ela perguntava: “por quê?”.
A opção normal seria começar a responder porquês em cascata - “porque você tem que ir limpa para a escola”, “por quê?”, “porque você estava brincando de picula e está suada”, “por quê?”, “porque seus coleguinhas não gostam de criança fedorenta”, “por quê?” “porque é ruim né, sentar junto de alguém azedo!”, “por quê?”, até perder a paciência e agarrá-la pelo pulso e colocar no chuveiro aos gritos: “p@##@, caceta, vá agora!” e entrar num círculo vicioso de irritação, mau humor e falta de paciência que resultará em dor e lágrimas (sim, eu falo palavrão, mas digo a ela é coisa de adulto e que criança falar é feio e ela não fala nem merda - não, não bato na minha filha! Mas experimente desembaraçar um cabelo enquanto está irritada: dói) e ficar me sentindo mal o resto da semana.
Ou opção alternativa é reperguntar: “porque o quê?” “por que eu tenho que tomar banho agora?” “porque são 12h00, já passou do horário, se você não tomar seu banho agora, vai ter que ir fedorenta para a escola. Você que ir fedorenta para a escola?” se não pudermos esperar. “ Ou vai chegar depois da primeira roda. Você quer chegar atrasada hoje?” se nós não tivermos compromisso, deixo ela chegar atrasada, porque ela odeia... se ela disser “quero!” para qualquer uma das duas opções eu soltava um “então tá!” e saía de junto. E tinha que sustentar a decisão.
Só quem é mãe sabe o valor de um “então tá” somado à capacidade de ignorar e abstrair!
Observe que a opção normal exige mais criatividade e paciência. A gente acaba respondendo a questões que não importam e como não damos a resposta que eles precisam, eles continuam o inquérito. A opção alternativa dá a eles um caminho lógico que sendo respondido não há porque continuar. É claro que eles podem soltar outro “por quê?” e neste caso soltamos outro: “por que o quê?”.
O problema da opção alternativa é que exige autoridade, decisão e capacidade de sustentar ameaças e, claro, a habilidade de pensar em ameaças possíveis de serem cumpridas por você e que estejam encadeadas com a desobediência – se não, não resolve, então não vale dizer que a mulher da trouxa vai levar, que você vai deixar de amar, ou que ela não vai a escola, ou que vai ficar sem sorvete no final de semana – tem que ser a consequência natural do comando.
Quando eles decidem desobedecer à ordem, temos que ser firmes no cumprimento da ameaça feita, temos que sustentar: um dia Alice foi de camisola para a escola. Foi chorando até chegar lá e além de aguentar este escândalo, eu tive que aguentar a cara feia do marido que achou um exagero. Pode ter sido um exagero, mas “nunca mais” ela enrolou para trocar a roupa de manhã...
Ser mãe exige paciência, e quando a gente decide criar os filhos no diálogo é preciso uma dose extra. No ano passado, a professora me chamou para contar que ela e mais três estavam fazendo complô em algumas atividades: lá tem um dia no mês que fazem cinema, fazem uma enquete e assistem ao filme que ganham (tem um aprendizado importante nisso: conceder), uma vez chegaram a ficar de costa para um filme que não queriam assistir – ficaram de costas por uns dez minutos e depois se divertiram muito.
Outro dia, as mesma fizeram um motim e desta vez acharam uma alternativa para não ver o filme – ficar com outro grupo que estava no parque pequeno, sob supervisão de outras professoras: perderam o cinema e a pipoca (que adora) porque queriam brincar de boneca na casinha.
Numa outra vez pararam as quatro na coordenação: “Mas elas são demais, foram para a coordenadora que disse ‘assim não está funcionando’, aí uma delas soltou: ‘e não vou funcionar mesmo! Não sou máquina, para funcionar’”... A coordenadora disfarçou a gargalhada que professora deu ao me contar a história: “nossa escola se baseia nisso – no questionamento de cada norma!”
Nós decidimos criar nossos filhos para mudar o mundo e não para se adaptar a ele, escolhemos uma escola sintonizada com esta escolha, Alice é educada para questionar. Então muitas vezes a prática diária entra em conflito com este princípio, mas temos claro que liberdade só se justifica com responsabilidade, que cada ato traz uma consequência, seria fácil colocar a palmada como esta consequência, mas a realidade é que no mundo ninguém te bate a cada erro, nós simplesmente perdemos coisas quando tomamos o caminho errado.
O “porque o quê?” foi a estratégia que encontramos para nos manter no diálogo sem sermos manipulados pelos filhos. Respondemos e damos as nossas ordens, mas entendemos que a obediência é uma coisa relativa. Outra estratégia é ressaltar o benefício: “e então, você não está se sentindo melhor assim fresquinha, cheirosinha?” Então fica claro que aquilo que ela faz não é para mim, ou para me agradar, não é para outra pessoa além de si mesma. Foi assim que ela voltou a comer verduras.
De vez em quando tento ressuscitar aquele combinado do “tá bom, mamãe”, mas ela só adere quando é uma situação limite tipo essa do cinema. Às vezes, eu esqueço a estratégia do “por que o quê?” ou do benefício (tem coisa que não tem benefício claro ou imediato) e entro direitinho no jogo de poder e manipulação que culmina num grito, e isto é um problema para mim, para o pai e para ela.
Porém confesso que queria que todos os banhos, todos os almoços, todas as arrumações de brinquedos fosse realizadas sem tantas justificativas e estratégias. E que o resultado fosse um adulto cidadão, proativo, que tenha liderança e que seja capaz de melhorar este mundinho nosso... Mas nada é de graça e trato de tomar minha paciência todos os dias!