Sempre fui corajosa. Mais do que isso, sempre gostei de fazer coisas diferentes e estar em situações que para a maioria das pessoas são problemáticas. Gosto de trabalhar sob pressão, de assumir riscos e de lidar com o inesperado. Gosto de ir para lugares em que a maioria das pessoas passaria longe, de explorá-los e conhecê-los bem. Conheço o Pará, o interior de Sergipe e o Rio de Janeiro. Tô brincando.
Herdei isso do meu pai, com certeza. Quando ele tinha 16 anos decidiu com mais 2 amigos que iriam conhecer a floresta amazônica. Detalhe: moravam em Porto Alegre. Meu pai então avisou a minha avó, que não deu muita bola, mas no outro dia não encontrou mais o filho em casa: tinha ido viajar. Passou 50 dias viajando de carona, dormindo onde dava, comendo quando tinha dinheiro. E até hoje ele conta que foi a melhor viagem que fez na vida.
Já eu, nunca viajei sem um cartão de crédito, mas independente de onde estava, sempre tirei um bom tempo para caminhar, conhecer a cidade e as pessoas. Me meter em roubadas e sair delas. Quando fui a Veneza com minha irmã, nosso programa preferido era nos perder. Caminhávamos um tempão no meio daquelas ruelas só para termos que sair e dar chance ao inesperado de nos surpreender. Porque Veneza não acontece na Piazza San Marco.
Obviamente, quando tive a oportunidade de ir à Bolívia, não tive dúvidas: só se for agora! Acontece que estava numa área de fronteira, onde tráfico de drogas e desvios de carros roubados era o que mais tinha. Uma versão hardcore da terra de Evo Morales. Mulheres com longas collas e cerveja Paceña rolando dia e noite. Em outros tempos passaria o dia fotografando.
Mas a maternidade instala em nós uma sirene, um sinal de alerta e cuidado, do dever da responsabilidade de criar alguém que depende da gente. E eu não consegui fazer nada do que faria antes. Fiquei com medo, não quis desbravar a cidade, me mantive segura. Me estranhei e percebi como fui transformada de um modo silencioso, intenso e profundo.
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