A convidada de hoje é uma amiga muito querida, conhecida de longa data
desde os tempos de Nhu-Porã. Mulher do comandante Mentz e mãe do Henrique, foi minha parceira de estágio em psicologia clínica, colega de formação em psicoterapia e amiga nesses momentos e em muitos outros. Com vocês, a Lu O.
o trio, voando
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Por Luciana Oliveira
Quando recebi o teu convite, Carol fiquei muito feliz. Logo que terminei de ler o e-mail vi que tinha uma sugestão sobre o que escrever. Sugestão essa que me agradou muito, pois ao lê-la, numa fração de segundos me passou exatamente a sensação de tudo que tenho vivido esses últimos meses.
A idéia era então desenvolver alguma coisa sobre ser mulher de um piloto comercial, mãe de primeira viagem, profissional e ainda da relação do meu pitoco com esse pai que ora está e ora não...
Voltando a voar surgiu na minha cabeça porque acho que depois de um turbilhão de mudanças, além do Mentz, eu também estou voltando a voar.
Convivia com o meu marido há 10 anos e tinha nosso primeiro filho há um ano quando ele tomou a seguinte decisão: vou voltar a voar. Que paradoxo de sentimentos! Ver a pessoa que se ama desejosa de literalmente voar e ao mesmo tempo ver a rotina de vida que até então vinha de um jeito, ameaçada de modificar-se instantaneamente. Felicidade e tristeza passaram a se misturar dentro de mim todo o tempo, porém não imaginava que a empresa lhe chamaria tão rápido.
Para minha surpresa, dois meses depois da decisão ele foi selecionado por uma companhia aérea e três meses depois lá estava ele sendo contratado e partindo para um curso que durava oito semanas em outra cidade, sendo que voltava no sábado ia no domingo.
Foi....como eu disse antes, feliz e triste.
Preocupada com os sentimentos do meu filho e com o nosso amor. Confio nesse amor, mas seria hipócrita se não dissesse que sinto medo e que, principalmente nas duas primeiras semanas, sofri. Minha amiga, sofri muito.
Foi um luto pelo tempo de casamento onde ele estava aqui todas as noites, vinha almoçar, os feriados e festas eram programados, a cama quentinha, a disputa pela coberta e principalmente a presença concreta na construção dessa nova pessoa que trouxemos ao mundo que é o Henrique.
O Henrique sempre teve uma rotina de sono muito boa, mas nas duas primeiras semanas passou a acordar e não querer mais dormir. Antes de dormir ficava chamando o pai, e aquilo fazia com que a minha saudade se duplicasse. Eu chorava baixinho para ele não ver, mas como estava doendo.
Bom, hoje faz oito meses que tudo isso se passou. É quase uma gestação e o que estou me dando conta é que precisei desse tempo para literalmente nascer para essa nova história da nossa vida!
Voltando um pouquinho ao passado, conheci o Mentz dentro do cenário da aviação. Ele era piloto, instrutor do meu irmão e eu estava na formatura dele.
Foi assim que me apaixonei por esse homem que tem sonhos, que sempre buscou o que quis e que, principalmente, tem coragem de uma decisão tão difícil, mas mais do que necessária: ir atrás do seu sonho!!! Sei que ele também sofreu e sofre com essa mudança, pois nossas escolhas de forma alguma são constituídas só de ganhos.
O que dizer do Mentz, principalmente como pai: mega presente, faz e fazia tudo com o Henrique. Banho, trocas de fraldas, fazia dormir, remédios na madruga, acordava de noite...Enfim, paizão!!!
Ele continua tudo isso quando está aqui, sou e estou feliz por que estamos conseguindo, mas o Henrique ainda não conseguiu concretizar essa rotina dentro dele.
Pergunta do pai no mínimo 20 vezes por dia, olha pro céu, faz barulho de avião e gesticula com a mãozinha o avião fazendo a curva.
Qualquer barulho na porta ele acha que o pai chegou.
Olha-o pelo skype e ainda fica confuso de como o pai está ali...
Fala sudade... Sabemos todos que ele precisa de tempo, mas tem muita ligação mesmo a distância.
Com o decorrer dos meses fui me dando conta que a relação, claro que ia se modificar, mas que mesmo longe ele estaria presente. E que poderia estar perto, mas ausente como sabemos que acontece com muitos.
Quando a ligação é forte e verdadeira, ela pode se modificar, mas o vínculo permanece.
Eu continuo sendo mãe e profissional. Com mais tarefas, lutando para equilibrar as demandas, com as culpas e com os sentimentos de querer dar conta de tudo. Estou melhor, mas confesso que tenho muito a aprender.
Estou engatinhando...
Juntos já viajamos e nos divertimos muito! E espero fazer muito mais...
Me peguei pensando que estamos fazendo coisas que jamais faríamos se tudo que contei não tivesse acontecido. Que coisa boa, escrevendo uma nova história.
Voltando a voar...