Hoje a convidada é a minha querida amiga Fê. Uma guria fora de série, que largou a vida fácil e confortável para lutar por mundo melhor. Psicóloga do trauma, já trabalhou no Sri Lanka com Nonviolent Peaceforce protegendo os civis afetados pelo conflito daquele país, na República Democratica do Congo com The Center for Victims of Torture supervisionando e treinando conselheiros psicossociais locais e atualmente está na Palestina (West Bank) com Médicos Sem Fronteiras atuando como psicóloga do trauma.
Sri Lanka
Congo
Palestina
PS: quem estiver em São Paulo entre os dias 04 e 30 de março pode conhecer um pouquinho mais do Médicos sem Fronteiras através da exposição "Experiências de vida – Olhares sobre a atuação de Médicos Sem Fronteiras", no Shopping West Plaza, na praça de eventos, térreo, bloco B. A exposição trará fotos, depoimentos, vídeos e mapas interativos mostram como vivem e trabalham os brasileiros de Médicos Sem Fronteiras (MSF), e no dia 18 de março às 19 horas, haverá um bate-papo com a psicóloga paulista Elaine Teixeira, que teve experiências em Moçambique e Suazilândia.
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Por Fernanda Menna Barreto Krum
Primeiro de tudo: Obrigada Carol pela oportunidade! Uma das primeiras coisas que fiz quando comecei o meu trabalho fora do Brasil foi montar um Blog. Adivinhem? A ONG vetou e disse que qualquer publicação deveria passar primeiro pelo crivo deles. Imagina, escrever em inglês e depois em português e depois ainda organizar o que dá e o que não dá pra publicar. Desisti!!!!
Mas não desisti de seguir registrando e compartilhando tudo durante esses quase quatro anos de testemunho, aprendizado e vivência. Tentei manter uma lista de emails nos quais dividi um pouco algumas experiências. Tenho publicado alguns recursos no facebook (documentários e notícias - ainda bem que a gente encontra serventia pra isso) e fotos no meu álbum pessoal para que, além de palavras, as pessoas tenham uma visão física de onde os dramas teatrais acontecessem. Por fim, para que nada se perca, tenho mantido um diário pessoal que, se o Universo entender ser o melhor caminho, se tornará um livro no futuro.
Hoje, mais um capitulo será escrito, graças a essa grande amiga Carol e sua ativa atividade de ativista blogiana, mãe, psicóloga, cidadã. Admiro tua forma de viver, pois como disse uma vez a uma amiga que referiu admirar minhas escolhas “desapegadas” de vida e trabalho: EU que te admiro, porque não sei como consegues gerenciar dois filhos pequenos, casa, estudos, trabalho e marido ao mesmo tempo sempre com um sorriso nos lábios e um coração em paz; eu, neste momento, não conseguiria!
Desapego na verdade pra mim é poder estar em paz com as escolhas que fazes e não sempre querendo algo diferente ou sentindo que algo falta. Estar plena e certa de que este é o caminho, até que ele se mostre diferente e rume em outra direção, que será somente a continuação do caminho anterior.
Acho que já filosofei demais, o que não era o principal objetivo dessa participação especial. Vamos ao que interessa então. Ou não! :)
Trabalhar e estar presente de corpo e alma em regiões onde conflitos armados entre seres humanos são o prato principal todos os dias realmente não é algo fácil. Não é pra qualquer um, mas isso não nos torna mais ou menos. Somente mostra que existem pessoas que se adaptam mais e amam mais algumas coisas do que outras coisas, mesmo que para alguns esse amor seja “um pouco estranho” (pra não dizer muito). E está tudo bem.
Este é um outro elemento muito importante quando se necessita estar frente a frente com membros do exército ou grupos armados ou radicais que já mataram ou feriram muita gente: o não-julgamento. Aprendi que não é só na sessão de psicoterapia que devo me colocar neutra (mesmo que a pessoa seja um ex-combatente que já matou mais de 50). Já estive em reuniões e em escritórios lidando com gente muito má, rude e dissimulada, tentando negociar, mediar ou solicitar um serviço (vistos, normalmente). Minha posição e reação deve ser sempre não-partidária, sem reações extremas ou opiniões definidas sobre certo ou errado. Não é todo mundo que consegue, já vi colegas perderem o prumo com funcionários do governo pedindo propina para autorizar que o nosso trabalho continuasse em operação. Sei que essa cena parece comum aos olhos de nós brasileiros, mas o grande problema neste caso é que um pequeno gesto de nossa parte faz com que uma ONG inteira seja simplesmente mandada embora do país enquanto milhares de pessoas ficam no inferno sem água para beber.
O que estou tentando dizer é que muitas vezes você se pega jogando o jogo deles, por mais sujo que seja, para que possa fazer melhor e tentar reparar um pouco do dano que causam. O sistema é terrível, a pressão que eles exercem é justamente para que reajamos de forma “desapropriada”, fornecendo a perfeita justificativa para que nos mantenham longe.
Duas semanas atrás fui ao ministério em Israel pedir meu visto de trabalho e foi exatamente isso que vivenciei. Uma mulher mais do que estúpida, tentando me tirar do sério para que então meu visto fosse negado. Ao pedir que eu escrevesse uma declaração que trabalho em Jerusalém e não nos Territórios Ocupados da Palestina (mentira, claro) foi capaz de dizer: “Tu precisas perguntar a alguém como faz, ou tu sabes mesmo escrever? Escreve logo que eu estou aqui esperando”. Meu coração bateu forte mas mantive meu rosto neutro e fiz o que foi solicitado. Menti para que pudesse manter meu trabalho como psicóloga do trauma na Palestina, óbvio! Sai de lá triste e com um desgosto dentro de mim, de testemunhar a que nível chegam as relações humanas como forma de manipulação e poder.
Discutindo o caso com meu companheiro, percebo que não deixei ela me atingir no sentido de me desestabilizar, mas sim, sou grata de ainda me surpreender e me entristecer com práticas como essa. Acho que essa é a pedra filosofal do Ativismo. Deixar-se tocar pelo injusto, mas não se deixando matar por ele. Sendo inteligente o suficiente para se manter vivo para, então, transformar a injustiça em arma de paz e de cura.
Afinal de contas, é isso que importa no final, manter-se ativo, ativado, ativista, da forma que puder pra que algo melhor floresça!


13 comentários:
carola,
ainda não descobri em qual parte, pq sinceramente me tocou o texto inteiro, eu parei pra refletir sobre o tudo.
adorei o texto, adorei saber do trabalho da fê.
bjo bjo
Tenho grande admiração por pessoas que fazem esse tipo de trabalho, já vi uma exposição do Medicos sem fronteiras aqui em Brasilia e fiquei mais fã ainda.
Parabéns, Fernanda, pessoas como vc fazem muito a diferença. Carol, obrigada por nos brindar com esse lindo post.
Abraços
Carol, querida,
desta vez vc abalou com esta convidada! que luxo!
Fê,
fico maluquinha quando leio relatos como esse: já não bastasse toda a dificuldade de não estar em segurança, longe da família, tratando de assuntos de vida e morte, ainda tem que ter sangue frio para não se deixar abalar pelo absurdo. este seria um aprendizado para mim: não me permitir matar pelo absurdo, sem nunca deixar de me indignar.
beijoca
Clap, clap, clap!
Fico realmente admirada com a garra de pessoas que se doam para esse tipo de trabalho...
É algo louvável mesmo.
Eu não teria essa capacidade, sou franca em dizer. Talvez por isso admire tanto quem tem.
Emocionei.
BJos
Um bálsamo de leitura nessa minha noite tensa. Negociações são sempre tensas. Mas, enquanto eu fico irritada com altos preços, a Fê consegue se manter firme diante de uma negociação tão convarde! Você me ensinou hoje que o não podemos perder nosso propósito de vista! Parabéns! E obrigada Carol!
Testemunho de uma mãe!
Quero deixar um registro para minha filha amada, a quem chamo carinhosamente de "meu bicho".
Na verdade, o meu desejo era de relatar muitas coisas, mas o simples e que diz tudo é o meu aprendizado com esta filha maravilhosa e corajosa. Aprendi muito e me tornei "outra" mulher com o desprendimento das escolhas de vida de Fe, as quais ela honra com muito amor. Bj na alma, mami
Amei tudo, a consciencia, a indignação, o altruísmo, que pessoa linda, que pena não a conhecer. tem uma coragem que eu nunca vi de perto. muito legal. bjs
Olha, taí uma coisa pra realmente se pensar.
Parabéns, Fê. Endurece, mas não perde a ternura jamais.
Muito interessante... eu sou pavio curto, não dava. Ser pavio curto é tolice, burrice até... ai, ai.. mas sou. Não suporto ignorância e acabo sendo ignorante também. Mas é por isso que ela está lá e eu aqui. Ela já aprendeu e está pronta para ajudar. Uma beleza esse relato. Bjos, Carol. Mary
UAU!! Fiquei super emocionada com esse post. Acabei de me formar em psicologia e durante boa parte do meu curso sonhava em trabalhar em áreas de conflito. Mas o mundo dá mtas voltas, sabe como é...
Muito bom saber como é esse trabalho, ver como é dificil, mas mto importante e necessário.
Parabéns às duas por esse post lindo!!!
www.devaneioslunares.blogspot.com
parabéns por levar a cura, parabéns por trazer a paz.
sem mais, toda arrepiada.
Carol querida, amei o post.
Sou fã desta parte do blog e sempre me surpeendo.
Parabens pra Fê, que colega mais maravilhosa! Fico muito orgulhosa!!
Bjks mil pras duas!!
http://blogdaclauo.blogspot.com/
Fernanda: parabéns pelo seu trabalho!!!!
Tenho uma irmã que também tem muita vontade de seguir o trabalho dos Médicos sem Fronteiras (ela fez medicina e um ano de seminario). Acho muito bravo e aplaudo de pé quem tem essa coragem de ir à frente e ajudar ativamente os outros.
Você já viu um filme chamado "Amor sem Fronteiras"?? É bem do jeitinho que você descreveu...
Bjos e bençãos.
Se cuida menina!
Mirys
www.diariodos3mosqueteiros.blogspot.com
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