Terminei de ler O Conflito: a mulher e a mãe de Elisabeth Badinter e gostei muito do livro. É bem menos polêmico que a entrevista da Veja (que comentei aqui) e pode até frustrar algumas pessoas que vão em busca de colocações fortes. O que ela faz é uma retrospectiva muito bem amarrada da história da mulher e do feminismo e de como tudo isso desencadeia na exigência de sermos todas mães perfeitas.
Claro que cada leitura é única e essa é a minha interpretação dos fatos. Já conversei com outras pessoas que leram o livro e que o acharam chato, irônico e/ ou sem graça. Mas eu achei super interessante e de fácil leitura. Cada ponto de vista é a vista de um ponto, e esse é o meu.
Apesar dela apresentar e relacionar o que escreve com a condição das francesas, penso que tudo pode ser associado com a nossa sociedade e reflete o que vivemos no Brasil. Percebo que aqui também temos um movimento de valorizar o que é natural e primitivo na mulher (mestruar, conceber, gestar, parir, amamentar), que é o que ela chama de maternalismo. O maternalismo, portanto, é uma redescoberta da mulher enquanto mamífera e ser instintivo. Maternar passa a ser a arte feminina por natureza.
A maternidade, desse prisma, é algo determinado biologicamente e regulada por dois hormônios: prolactina e oxitocina. Parir e amamentar, por exemplo, devem ser funções naturais como é para outras mamíferas que agem sob influências dessas substâncias. E aqui vem a primeira crítica da autora, que utilizei de título para esse post: hormônios não bastam para haver uma boa mãe.
Na minha interpretação, diferentemente de outros animais, temos inconsciente e um aparelho psíquico mais estruturadao que nos possibilita ir além de outros mamíferos. Não comemos placenta (ou comemos - aqui) e nem todas nos vinculamos imediatamente a nossos filhos (aqui). Temos aspirações além da maternidade! Podemos ficar em casa com os filhos, mas podemos também sair para trabalhar se temos vontade, e é isso que não é levado em consideração se a mulher é tratada apenas como mamífera.
O que deriva daí é uma lista de "tem que": tem que parir naturalmente (de preferência sem episio ou anestesia), tem que amamentar exclusivamente até tal idade, tem que parar de trabalhar para se dedicar exclusivamente aos filhos. E essas normas são sufocantes! Falando um pouco da minha experiência pessoal e do curto tempo que amamentei meus filhos, penso que se não tivesse assumido a tarefa quase impossível de amamentar gêmeos exclusivamente e ter complementado com leite artificial desde o início, talvez tivesse conseguido amamentá-los por mais tempo.
Acho que todas essas obrigações só atrapalham e nos pressionam para sermos perfeitas, o que é impossível. E é essa leitura que faço do livro: a autora questiona essa obrigação de ser perfeita: "Inscrevendo-se na lógica do tudo ou nada, tendo alta consideração dos deveres maternos, essas mulheres calam os prazeres e benefícios da maternidade. Elas veem apenas os aspectos sombrios, constrangedores e sacrificiais".


12 comentários:
Oi! :)
Realmente essas "obrigações" bem como as dicas, receitas e N comentários que recebemos de outras pessoas causam muito sofrimento. Sobretudo para mães de primeira viagem que desconhece a dor e a delícia que é ser mãe. É muita informação e cobrança ao mesmo tempo, e tudo parece se transformar num tsunami dentro da gente.
Hoje, um ano e pouco depois, me sinto mais tranquila e tenho consciência que cada uma é a melhor mãe que pode ser para seu filho. O que é bom para mim, pode não ser para você e vice versa.
Não li o livro, mas acredito que ser mãe nos dias de hoje é bem diferente do que foi para gerações anteriores à nossa.
oi carola,
estou ensaiando pra ler esse livro há tempos.
mas fico com essa falta de vontade toda vez que penso "lá vem mais uma gringa dizer o que a gente deve fazer".
deu mais vontade de ler agora.
vamos ver se encaro.
bjocas e ó, ainda fico com nojinho grande da tal placenta, viu?
Tô igual a Carol Garcia... enrolando!
Mas esse "tem que" é o que mata em tudo, né? Tira o prazer das coisas.
Acho que só mudar o "tem que" para o "seria legal se" já dá outra visão de mundo.
Seria legal se eu lesse esse livro.
Jokas da Mi @diiirce
Bom Carol,
gosto muito do seu blog e dos textos que encontro aqui, muitos me levam a uma reflexão sobre situações que antes seriam encaadas de modo diferentes, hoje posso dizer que tomo decisões mais sensatas e com isso formo uma opinião inteligente sobre diversoso assuntos na maternidade.
Vou procurar o livro por aqui, não para ser usado como biblia, mais como mais um ponto de vista.
Abraços,
Carol, como vc sabe, tbem li o livro e compartilho das suas opiniões e impressões. O outro livro dela ("O Mito do Amor Materno"), que eu tbem li é mais completo ainda. Claro que ela é polêmica e é claro também que dados e fatos históricos das francesas não podem ser generalizados ou completamente aplicados aqui, mas que ela levanta excelentes questionamentos, isso é inegável!
Bjos,
Camila
www.mamaetaocupada.com.br
Apesar de cá em Portugal não se falar muito do livro, eu já tinha pensado em ler. Agora estou com mais vontade.
:)
carol,
acho que as pessoas levam os livros muito pelo lado pessoal. outro dia, por exemplo, li uma opinião que dizia que a criança precisa muito dos dos pais na primeira infância e que não atender esta necessidade pode causar muitos prejuízos. a atenção integral, que é "agora".
tá! não tenho dúvida disso, mas o fato é que minhas contas não serão pagas sozinhas e preciso trabalhar e estar longe dos meus filhos. estou certa que a melhor companhia para bebês são os pais. mas não me OFENDO em saber que não estou fazendo o que é melhor.
e acho que não há necessidade de se ofender com as críticas às mamíferas, quando a mulher opta por ficar EXCLUSIVAMENTE com as crianças. não vejo razão para tanta polêmica.
sua opinião me deu mais vontade de ler o livro, porque pelas entrevistas que li entendi que há um alerta subentendido, um alerta real sobre as mulheres que abandonam do mercado de trabalho. sobre consequências e cuidados que podem tomar.
e não tenho como discordar de Badinter, pois a realidade se impõe sobre o ideal: tenho uma amiga que se dedicou por mais de cinco anos à filha e à casa, num casamento harmonioso (aparentemente), com tudo combiandinho.
ela se separou, a guarda é compartilhada (ou seja ELA não tem direito à pensão), eles não tinham patrimônio para dividir, ou casa própria para ela ficar com a filha. para completar ela está desatualizada, sem redes de contato --> sem possibilidade de conseguir um emprego, tendo que fazer vários bicos, vivendo no limite sem grana mesmo - há mais de um ano!!!!
este é alerta de Badinter: viver sob dependência de um homem é um perigo, um passo na contramão da história mesmo.
existem boas fórmulas que equilibram as realidades: party time, home office, etc. todas siglas inglesas que podem ser aplicadas por meia dúzia de mulheres brasileiras, todas da classe média.
sabe, carol, eu adoraria ficar dois/três anos com meu bebê. poder estar presente na vida dele de bebê, mas eu jamais colocaria em risco a sobrevivência (minha e deles) e o trabalho é a única forma que tenho para garantir isso. agora, mesmo que eu pudesse ficar sem MEU dinheiro, eu não me afastaria por mais de dois/três anos de minha carreira, ou de uma atividade remunerada. não mesmo!
beijoca,
Mari
Mari, brilhante teu comentário! Concordo com tudo o que dissestes!
Carol:
Ontem mesmo escrevi sobre a gente aceitar nossos limites. Quantas vezes não falamos sobre a culpa por tudo, já que estabelecemos limites absurdos para nossa maternagem?
Fiquei muito interessada pelo livro. Acho que as verdades absolutas são abomináveis e devemos lembrar que o mundo ideal não é esse (Platão disse isso há mais de 2 mil anos e ainda não entendemos).
Concordo com você: somos mamíferas, mas não somos só isso. É sempre bom lembrar que nem sempre o que é melhor para uma pode ser para todas.
Abraços
Sofia
Carol
Mata mesmo essa "obrigação". Quando nos tornamos mães acabamos nos forçando a acertar sempre, para os outros não apontarem o dedo no nosso nariz e dizer que não somos boas mães...
Encaro essa idéia de não trabalhar pra cuidar do filho como mais uma renúncia, afinal fazemos varias... Mas por outro lado poder acompanhar o desenvolvimento do 1º ano pelo menos é maravilhoso. Uma fase que passa num piscar de olhos...
Vou tentar encarar o livro também.
Beijinhos
Carol, eu sou daquelas que aproveitou a contribuição histórica do livro, porém nao consigo ver interferência do pensamento de Badinter nas minhas decisões. Sim trabalho, mas é menos do que seu eu nao tivesse um filho. Sim, participo ativamente da vida do meu filho, mas é menos do que se eu nao trabalhasse. Faço o que dá.
Quanto ao tem que, acho que é a velha história do ponto de vista. Existe uma opção melhor para a criança? SIM. Do ponto de vista da saúde é melhor que seja amamentada no peito e venha ao mundo departo natural do ponto de vista do conforto e possibilidades maternos, talvez essa nao seja a melhor opção.
Penso que o importante é conhecer os pontos de vista variados, fazer decisões baseadas em suas próprias vontades e ir em frente. Isso é um mecanismo anti culpa fundamental. Se a decisão foi minha, toda minha, eu escolhi, como posso me arrepender? Amor Fati!!
Bjo bjo
bem legal essa visão, acho que a sociedade vem mudando e essas" obrigaçoes" começa de nós mesmas, eu mesma sou um tanto desesperada com meu primeiro filho eu achava que ninguem conseguiria cuidar dele como eu, larguei tudo para ficar com ele, hoje tenho tres filhos e acho que baba é essencial, e que há muitos que podem ama-los e cuidar deles, claro que a babá é para ajudar e é super dificl de achar uma boa, mas hoje percebe que há muito mais no universo materno, que eu preciso ser mulher, ser profissional, alem de mãe, apesar de que eles me inspiram a tudo.
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