4 de fevereiro de 2011

Cisne Negro: quando a perfeição sufoca


A convidada de hoje é a Carolina Pombo, do What Mammy Needs. Psicóloga, pesquisadora e mestre em Saúde Pública, palestra frequentemente na Escola Virtual para Pais. Textos engajados e idéias inteligentes é o que se pode esperar dela. Querem ver?



* * * * *
Por Carolina Pombo

A Carol me convidou para um desafio estimulante! Pediu um post-resposta ao seu "Nem santa nem louca". E eu, no meio de um rodamoinho de tarefas e em plena férias escolares de Laura, aceitei o desafio com muita honra! Como eu disse a ela, sou mais paixão do que razão, e acabo peitando as coisas pelo afeto que elas me despertam. Por isso, eis me aqui nesta noite de sábado, enquanto todos em casa dormem, após assistir o intenso filme "Black Swan" com a Natalie Portman (e o meu marido), cheia de gás para falar do tema polêmico que a Carol levantou!

O filme mostra a luta interna de uma bailarina à beira de um surto psicótico, para encarar o papel de Rainha do Cisne e ser a estrela da companhia de dança. O âmago de seus conflitos está na obsessão pela perfeição - mas na perfeição baseada no controle. Apesar de o diretor do balet lhe dizer que "perfeição não se refere sempre à controle", Nina cresceu sob a enorme pressão da mãe para que se tornasse a filha ideal. E qual mãe espera de sua filha que viva intensamente? Geralmente, os pais preferem filhos comportados, que não cheguem tarde em casa, durmam bem, estudem bastante, comam de tudo... E, a mãe de Nina tem um plus: abdicou da carreira de bailarina para ser mãe integral e, mesmo depois de sua filha completar seus vinte e oito anos, se relaciona com ela como se ainda fosse uma menina.

O filme mostra os rituais do par: antes de dormir, o cabelo escovado pela mãe, no quarto rosa e infantil, com o som de uma caixinha de música habitada por uma bailarina rodopiante. O quarto não tem chave, não há qualquer barreira para os cuidados e o desejo dessa mãe. Não há privacidade. Nina se esforça intensamente para controlar seu lado negro para assumir pefeitamente o lugar de filha ideal. O balet se torna, assim, o palco para sua obsessão, dando continuidade à neurose da mãe. Mas, para viver o cisne negro, ela precisa libertar-se dessa opressão. Ela precisa deixar fluir a agressividade, a paixão, a sexualidade há tanto tempo represada. E daí, desenrola-se uma trama cheia de conflitos e simbolismos.

O problema maior das pessoas que se esforçam loucamente para vestir a indumentária de santa é que, quando a puta precisa sair, sai debaixo! Elas não desenvolveram mecanismos saudáveis para equilibrar os dois lados do cisne.

E o problema maior das mães que não admitem falhar (ou seja, sendo impacientes, gritando, irritando-se de vez enquando) é que para sustentar tamanha repressão, precisam de filhos reprimidos. A mensagem indireta que elas passam é que só a idéia de descontrolarem-se é ameaçadora. E as respostas dos filhos podem ser na tentativa de manter essa mãe inquebrável. Parece mentira, mas existem mães assim, que beiram a perfeição do controle, à aparência de santas.

Eu, constantemente, me pego orgulhosa por ouvir as pessoas dizerem que Laura é uma criança ótima, compreensiva, educada. Mas, quando páro pra pensar em tudo que acabei de escrever, me preocupo em não transmitir para ela tal idealização. Quero que ela sinta-se livre para escolher seus caminhos, mesmo que para isso tenha que me contrariar. O desfralde tem sido um retrato interessante desse processo: depois de dois dias inteirinhos sem nenhum xixi no chão, se foram mais dois de nenhum xixi no vaso! É a maneira de ela dizer "eu não serei sempre o que você quer, sou eu quem controlo meus xixis, p#rr@!". E eu, por outro lado, não me descabelo nem grito, mas deixo bem clara minha insatisfação em ter que mais uma vez limpar o chão e levá-la para debaixo do chuveiro! É espontâneo: "Ah Laura, de novo não!!! Pô minha filha, que saco!!!"

Entrar em conflito faz parte! Como diria Winnicott, a mãe suficientemente boa não é aquela que supre todas as necessidades, mas aquela que falha sem abandonar, aquela que dá ao filho a oportunidade de simbolizar, se reinventar, se apaixonar por outras mulheres, afinal! Uma mãe que não admite a própria impaciência quer ser tudo para o filho, quer ter o poder de satisfazer-lhe mesmo quando ela própria está no limite da exaustão.

Só mais um causo para ilustrar: fui agora há pouco ver Laura dormindo em seu bercinho. (Depois de uns vinte minutos choramingando e arrumando todas as desculpas para ficar perto do pai e de mim, consegui colocá-la para dormir às oito horas). E agora, apesar do calorão, está ela deitada em seu travesseiro com o travesseiro da mamãe sobre seu corpinho, agarrada, como quem imita um abraço. Primieiro pensamento de culpa santa: "Ai tadinha... ela queria dormir abraçadinha com a gente... vou trazê-la pra nossa cama!"; segundo pensamento de mãe orgulhosa: "Ah, ela tá simbolizando! Eu também não gosto de dormir abraçada num travesseiro? Então, que bom que ela está criando maneiras de lidar com minha ausência!". Boa noite!

18 comentários:

Unknown disse...

Adorei o texto e me fez refletir. Nao tem como controlar os filhos, e nem eu quero ser controladora, mas sou as x. E nao posso ser pois vou podar a crianca. Acho dificl achar o ponto entre nao ser controladora e fazer obedecer, voces me entendemmmmmm
Parabens para as duas !
bj

Carol Garcia disse...

Adorei o post.
super reflexão aqui dentro de mim agora.
será que sou? não sou?
mas ufa... acabo de chegar a conclusão que não sou nada bailarina...
bjo bjo.

Marcia Taborda disse...

Quebrando a corrente das quatro Carolinas anteriores, fiquei refletindo sobre a Marcia que existe dentro de mim e relembrando algumas coisas importantes...

Qdo peguei pela primeira vez meu filho mais velho (hj com 18 anos) olhei para ele e com uma culpa enooorme, pensei: "o que fiz da minha vida?".

Anos se passaram e vi que foi a melhor coisa a maternidade (tanto que repeti a dose), embora cheia de conflitos (realmente ninguém conta esse lado da história).

Conflito é humano e faz parte do nosso cotidiano! Nem sempre somos o que pensamos ou o que queremos. O que é realmente importante é sempre parar para se olhar e se conhecer ou se reconhecer a cada dia em busca da autenticidade, a fim de poder se orgulhar de ser quem somos de verdade!

Coloquei um link para esse post no portal da Escola Virtual para Pais (www.escolavirtualparapais.com.br), ok?

bjks,
Marcia

Nine disse...

Ótimo texto, adoro o blog da Carolina!

Fora que estava lendo sobre o filme, a idéia de mães perfeição nos deixa sufocadas, e isso me irrita desde a gravidez, quando não podia reclamar dos mal estares que sentia que logo já se comentava que talvez eu estivesse rejeitando a idéia de estar grávida (oi??).

E agora, na maternidade, não posso me queixar de alguma coisa que logo já pensam que preferiria não ter filhos...

A sociedade idealiza as coisas, imbute em nós essa idéia de perfeição e quando menos esperamos somos sugadas por essa idéia, fazendo com que um simples desabafo tenha conotações desastrosas.

O resultado é o fechamento em si mesmo, a guarda de pensamentos não tão politicamente corretos (que está em moda nos dias de hj, e confesso que acho que vários blogs maternos ajudam a conservar essa idéia) que culminam num belo dia de ataque de fúria, aparentemente sem motivos.

Perfeição não significa controle de tudo.

Beijos,
Nine

Anne disse...

muito bacana mesmo!
mas essa "santidade" muitas vezes me parece o que se espera, inclusive da nova mãe!
nesse caso então que os santos abençoem a blogsfera pela chance de nos fazer refletir sobre nossa qualidade humana, tão mais legal e cheia de defeitos!
bjos à todas essas caróis

Cris disse...

Quando minha filha mais velha tinha 2 anos e meio me separei do pai dela. Apesar de ter sido um processo amigável a tristeza foi inevitável. Fui fazer terapia, não só por mim, mas também para saber como lidar com a pequena.

A melhor dica que minha terapeuta me deu e que levo até hoje: "mostra os teus sentimentos para tua filha: compartilha, vive junto! Se estas triste, mostra que estas triste, assim ela vai aprender que existe tristeza, mas ela passa". E assim fiz.Hoje ela tem 8 anos e é super bem resolvida.

Quando recentemente não pode participar de uma apresentação da escola, ficou muito triste. Chorou, se indignou, mas depois de 1h veio brincar comigo e disse que ainda estava chateada, mas que sabia que a tristeza ia passar e no dia seguinte já ia doer um pouquinho menos e no outro ainda menos.

Não precisamos ser perfeitas, o mundo não é perfeito.

Precisamos criar adultos conscientes e que saibam lidar com a frustração.

Priscila Blazko disse...

Ótimo texto.
Várias coisas para fazer agora: conhecer o blog da Carolina Pombo, assistir ao filme Cisne Negro e conhecer o Escola Virtual para pais!!!
Abraços.

Beta, a mãe disse...

Nossa Carol(s) adorei o post! Me fez refletir muito sobre ser mãe e minha atual situação. Adoro essa troca que os blogs promovem. Mãe é um bicho esquisito mesmo! Adoro gente que escreve tão bem assim. VOu lá dar um pulo no blog da Carol. Beijos

Naiara Krauspenhar disse...

Ai Carolas, sim as duas.
Carol Pa por ter aberto o espaço e Carol Po por escrever um texto tão lindo.
You 2 rock!!!

Vou te falar. Ficou bom demais.
Tudo.
Mas me deleitei mesmo foi com esse trecho:

"O problema maior das pessoas que se esforçam loucamente para vestir a indumentária de santa é que, quando a puta precisa sair, sai debaixo!"

Ai, como isso é verdadeeeeee.

Mariana - viciados em colo disse...

Este texto caiu como uma luva. Vou mandar o link para o meu marido - ele teve uma mãe santa e tem esta mesma expectativa sobre mim: não admite nenhum descontrole e isso tem sido o nosso maior dilema...
Beijoca para a duas CAROLs

Heloísa Vianna disse...

virei sua fã, Carol, que texto ótimo! e fiquei louca pra ver o filme, rs... beijos!

Carolina Pombo disse...

Oi queridas!!! Entrei aqui rapidinho para agradecer o carinho, o espaço e o debate... Grande beijo!

Fernanda disse...

ADOREI o post!!! Já estava querendo ver esse filme e olha que nem sabia desta parte da relação mãe-filha...
Texto perfeito, parabéns Carol que escreveu e parabéns Carol que convidou... Sou super fã deste blog

Tchella disse...

Carolzitcha, to passando correndito só para avisar que meu blog está mudando de endereço, agora vc nos acha aqui:

www.batatinhatinha.blogspot.com

bjoooca

Mix Martins disse...

É muito legal quando temos pais que admitem ser normais e até pedem desculpas pra gente quando erram, né? Lembro de poucas vezes que os meus fizeram isso, mas se tivessem feito mais acho que teria menos problemas de querer controlar tudo.
Quando desencanamos, damos permissão pra nossos filhos serem eles mesmos e não só o que queremos que eles sejam.... Esse era meu sonho quando criança... ter permissão pra ser mais eu e menos os sonhos deles...
Espero conseguir fazer com que meu filho aprenda a ser ele mesmo sem culpa, sem medo... mas feliz e satisfeito!

Roberta Lippi disse...

Caramba, que texto bacana. Faz a gente pensar muito sobre a vida e sobre a forma de sermos mães.
Quero muito ver esse filme.
Beijos para as duas Carol P.

Ma Petite disse...

Amei a postagem!!! Muito bem escrito!!!
Tanta coisa para refletir que acabei em lágrimas!
Mas confesso: estou longe, muito longe de ver a minha filha abraçada ao travesseiro e pensar "que bom que ela está criando maneiras de lidar com minha ausência"... Hoje minha filhota com apenas 2 aninhos, se eu ao menos desconfiasse que aquele travesseiro estava ali me substituindo, eu arrancava ele dos brancinhos dela,corria pra dormir de conchinha e FODA-SE o resto! UM dia, mas somente um dia, ela vai conseguir compreender a minha ausência sem precisar de um travesseiro!!! Amoooo este blog!!! Parabéns Carol, estou sempre por aqui mas nem sempre tenho tempo de comentar! Estou dando os primeiro passos neste mundo... passe por lá: http://mapetiteisadora.blogspot.com

Bjosss... Karine

Fabi Alvim disse...

Que texto sensacional! Acho que muitas mulheres/mães devem se identificar com as super bem escritas palavras da Carolina. O assunto - ser perfeita/santa - me assombra desde que tomei consciência desses meus sentimentos. Aproveito pra indicar a leitura de um livro simples e gostoso com um título quase bobo "Você pode ser feliz sem ser perfeita" de Alice Domar e Alice Lesch Kelly da editora Sextante. Foi muito bacana pra mim poder aceitar (ou pelo menos tentar) que não sou a única que sofre com isso. E sofrimento não é exagero... pq a expectativa que colocamos (e o mundo todo também) sobre nossos ombros para darmos conta - perfeitamente - de casa, marido e, principalmente, filhos é inatigível. Angústia. Começar a realizar que somos mulheres humanas que não só acertam e deixar que nossos filhos convivam com essa realidade parece ser o paradigma da feminilidade contemporânea. E estamos, com certeza, educando melhor assim.